sábado, 15 de junho de 2013

O mistério das joaninhas mortas


Cresci ouvindo dizer que joaninhas dão sorte. Eu e a humanidade, pelo que me informaram. Uma das imagens mais poéticas é a de brutos e sábios, tolos e realistas, sem reservas, embasbacados diante da visão de um desses insetos pousados na palma da nossa mão. Sentindo-se agraciados, olhamos os desenhos da carcaça, como que diante de uma boa pintura. Em segredo, imaginamos que virá um grande amor ou um prêmio na loteria. Depois sopramos o bichinho para que siga seu destino. Ninguém os mata, como se faz com as baratas, as aranhas ou as formigas.

Mas eis que, de uns tempos para cá, encontro joaninhas mortas num dos quartos do meu apartamento. Não passa semana sem que o réquiem se repita. Não sou supersticioso. Passo até debaixo de escadas. Só não dou mole mesmo é para chinelos virados, pois ninguém é de ferro. Lembro de um artigo do sociólogo da religião, Riolando Azzi, no qual afirma que as crendices brasileiras são resultado da expulsão dos jesuítas, em 1759. Sem padres a nos refinar a fé, passamos a acreditar na força de vassouras colocadas atrás da porta e outras bobagens. Virou um traço cultural.

Pela lógica, as finadas joaninhas habitam uma árvore próxima e são trazidas pelo vento. No começo, eu as recolhia do chão. Esperava que se mexessem, cumprindo a promessa que representam. Mas logo eram muitas, inertes, alinhadas sobre a mesa quais vítimas de uma chacina, tipo o 111 do Carandiru. Passei a jogá-las na grama – vai ver, era fome. Em vão. Restou a pergunta se não seria um mau presságio. Se joaninhas vivas simbolizam sorte, joaninhas mortas poderiam representar azar.

Restou-me procurar o melhor remédio para o obscurantismo – a ciência. Foi assim que me vi diante da professora doutora Lúcia Massutti de Almeida, 61 anos, do Departamento de Zoologia da UFPR. Ela é das maiores especialistas do Brasil em joaninhas. Tem 80 artigos publicados sobre o assunto, uma pá de capítulos em livros e tudo mais. Orienta uma dezena de pesquisadores. É mulher bela, de sorriso aberto e unhas vermelhas.

À revelia dos rigores acadêmicos, seu gabinete no Centro Politécnico nada tem de sisudo. Na parede, um cartaz feito por uma criança diz: “Não matem as joaninhas”. A mesa é repleta de incontáveis badulaques – chaveiros, relógios, porta-retratos, adesivos, todos com motivos de... joaninhas. São presentes trazidos de várias partes do mundo. Diante de qualquer suvenir com antenas e bolinhas coloridas, os amigos lembram de Lúcia, que não se intimida expor o que ganha junto com os equipamentos de taxonomia. Ambos fazem parte de seu acervo afetivo.

As joaninhas a escolheram. Há três décadas, cruzou nos corredores da UFPR com o padre Jesus Moure, mito da entomologia na América Latina. Ele lhe deu um trabalho sobre os coccinelideos e disse “é o que você devia estudar”. Acatou. Daí em diante, mostrou-se atenta às maldades que os agrotóxicos causam às joaninhas e à possibilidade da criação de novas espécies, aumentando as 6 mil já catalogadas. Interessa-lhe também o significado desses insetos.

Conta-me que nos países escandinavos, assim como na França, são associados à Virgem Maria. Que os ingleses a chamam de ladybirds. E que pimpolhos americanos se fantasiam delas. Que nas zonas mais frias do mundo, comunidades inteiras de joaninhas se abrigam nos tetos, até surgir a primavera. Mostra-me fotos. Nunca as tinha visto aninhadas, formando uma colcha vermelha e preta. Com meus botões, pedi pelo meu querido Atlético Paranaense, que devia colocar uma joaninha na bandeira e nunca mais pastar na segunda divisão.

Mas me calo para não dizer besteira. É bom ouvir a douta Lúcia falando a um leigo que “joaninhas sempre são boas”. Uma aula. Explica – são insetos predadores de pulgões que infestam as plantas, daí sua importância no combate às pragas. Uma bênção para agricultores, ainda que tantos as desprezem. Têm vida breve – 30, 40 dias. Como procurar sentidos é do meu ofício, entendo que as joaninhas estão salvando a árvore lá do prédio. Ao morrerem na minha janela pedem que eu não esqueça disso. Que fique aqui registrado, em saudosa memória.

José Carlos Fernandes - O mistério das joaninhas mortas - Colunistas - Gazeta do Povo

sábado, 18 de maio de 2013

Escola sem portas, sem parede, sem professor

terça-feira, 19 de março de 2013              Escola sem portas, sem parede, sem professor

Você já pensou numa escola sem muro, sem porta, sem janela e sem professor?

A imagem que se desenha na mente é triste, mas na realidade não é bem assim. A ideia partiu de um homem cuja vivência acadêmica já havia esgotado sua crença no modelo tradicional de educação. Depois de ter adquirido título de doutor na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ter trilhado uma carreira como professor na Pontifícia Universidade Católica- PUC, de Minas Gerais, Tião Rocha resolveu abandonar tudo para ser educador.

Esse título só foi incorporado ao compreender que as atuais instituições de ensino não cumpriam o papel principal: educar para a vida. Uma educação na qual o ensinamento corresponda às necessidades do dia a dia, que se correlacione com a realidade do indivíduo. Desse modo, Tião Rocha viu na educação popular uma forma de inclusão, sobretudo dos que tem menor renda, entretanto sua luta vai para além: é na escassez de recursos que a criatividade aflora, ela não deve ser impeditivo para a educação, é justamente a partir daí que surge um degrau para iniciativas sustentáveis, ingrediente essencial para tornar possível a educação popular.

Foi então que em 1984 ele funda o CPCD – Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, visando atender crianças de quatro a cinco anos ele lança o projeto piloto: Sementinha. O município de Curvelo, situado no Estado de Minas Gerais foi palco dessa experiência, como não havia creches públicas a intenção era atender às crianças da região, os espaços poderiam ser os mais diversos, como debaixo de um pé de manga!

Isso mesmo, debaixo de um pé de manga, em centros culturais, ou até mesmo na casa de um morador do bairro. O lugar não é o mais importante, o grande diferencial está no que é passado para as criança, são valores básicos, mas de grande relevância para o seu desenvolvimento: autonomia, identidade coletiva, valorização da cultura local etc.

Nesse modelo o aluno pode e deve questionar, pois não existe uma hierarquia verticalizada, os encontros são em rodas, quebrando a imagem daquele professor que apenas reproduzia informação, para agora incorporar um novo título, o de educador, pois este não traz saberes prontos, mas colabora na produção de conhecimento dando força ao corpo coletivo.

Pouco a pouco vamos contando como o projeto chegou na cidade de Santo André e o que significou para as pessoas.

girarodavirasemente: Escola sem portas, sem parede, sem professor

sábado, 4 de maio de 2013